terça-feira, 26 de novembro de 2013

Oração

Uma vez li uma entrevista que o Gabriel García Márquez dizia que um escritor reescreve a mesma história durante toda a sua vida. Isso fez MUITO sentido pra mim. Já fiz três versões de um mesmo romance e já reescrevi tantas crônicas, tantas vezes, que até perdi a conta. Isso sem falar naquelas que escrevi, li, não gostei e joguei fora. Mas essa crônica abaixo, “Oração”, mesmo tendo sido escrita em 2011, é tão linda, tão inspirada e tão inspiradora, que não consigo alterar nem mesmo uma mísera vírgula. E a considero perfeita para estrear esse meu espacinho no mundo virtual. É o tipo de texto que, se eu lesse por aí, ia querer ter escrito!

Oração 


Meus olhos parecem mais pesados que o normal. Inchados, quase. Cada piscar significa uma força extrema para mantê-los abertos. Desenhos brilhantes dançam no teto. A cada tentativa de focar e decifrar o que vejo, pisco novamente. E mais uma vez brigo contra o sono e contra o peso que nocauteia minhas pálpebras. Sombras de pensamento se misturam às prévias de sonhos que ainda não nasceram. Cenas aparecem atrás dos olhos fechados, numa incrível mistura de ficção com realidade. Magia com imaginário. Lembranças me invadem, emendadas a situações que ainda não vivi. Sei que não adianta entender: o estágio que antecede o sono não se retém, e cada tentativa de entendimento é falha e vã. Ouço quieta o barulho do silêncio. E o som que ouço é preto e opaco. Meu cérebro se esforça, além da dormência, para definir o que lá fora é grilo, coruja e carro na rua. E após catalogar os sons, mais uma vez o silêncio se faz presente. E esboço um sorriso, me convencendo que o silêncio é, na verdade, o som que a terra faz ao se mover. Fecho os olhos e me permito um suspiro, após uma tentativa de me espreguiçar. Meu corpo se manifesta contra a vontade de se mexer. Tudo o que ele quer é ficar imóvel, inerte, repousado. Cooperativa, interrompo o movimento, esquecendo os braços acima da cabeça e um dos pés pra fora do edredom. Os segundos que antecedem o estado de relaxamento e torpor transformam o ambiente ao meu redor. Tudo parece estar mais acolhedor e mais macio – como se tudo ficasse, de repente, avermelhado. Consciente da minha inconsciência me esforço por mais alguns instantes de atenção. Antes de atravessar a mágica porta do mundo do sono, miro o olhar no teto. E agradeço. “Grata, meu Deus, por mais um dia. Grata por mais uma oportunidade de ver o sol, o céu e as estrelas. Grata por poder estar cansada, por poder ter trabalhado e feito o meu dever de observar detalhes para poder agradecer. Grata pelo meu emprego, pelo meu ofício, pela minha rotina. Abençoe, Pai, minha filha, minha família, meus parentes, meus amigos, meus colegas e a Vírgula. Abençoe todas as pessoas que eu amo – e todos aqueles que me amam. Ampare as mães que choram e os filhos que sofrem. Aqueça os corações machucados e debilitados. Agradeço, Deus, por poder agradecer ao que tenho. Agradeço por ter sido abençoada com as paisagens que meus olhos fitaram e minha mente registrou. Agradeço por ter tido o merecimento de até hoje ter escutado sons que se reproduzem quase automaticamente dentro de mim. Agradeço por ter experimentado o doce da vida e o sal do mar. Agradeço por ter podido experimentar cheiros que tiveram a essência impregnada em minha alma, me fazendo retornar a determinados momentos quando há a necessidade. Agradeço por ter pernas que levaram meus pés a se firmarem em chãos abençoados. Agradeço por ter pisado desde a areia da praia ao mato do cerrado. Grata por todos os sorrisos que sorri e as risadas que prazerosamente me permiti dar. Grata, também, pelas lágrimas que já se esparramaram de meus olhos, facilitando para que meu dissabor se tornasse mais suave. Grata, Deus, pelas pessoas maravilhosas que já conheci, e pelos conselhos sábios e importantes que recebi. Sou muito feliz por ter tido a maravilhosa oportunidade de conhecer aqui e ali gente tão igual e tão diferente de mim. Grata por essa saudade gostosa que rasga meu peito a cada lembrança. Grata por aqueles que vi e que sei que não voltarei a ver. Grata pelos que vou reencontrar em breve. Grata pelos que ainda nem sei que existem. Grata por todos os momentos de felicidade que, involuntariamente, fizeram meus olhos fechar de alegria e prazer. Grata por ter me divertido tanto em determinadas situações, que por gratidão Lhe agradeci no mesmo instante. Grata pelas lágrimas prazerosamente desprendidas em momentos que se tornaram inesquecíveis. Grata pelas cenas tidas como esquecidas e que voltam sem se anunciar. Grata por poder admirar o desenho das nuvens, o colorido das flores, o voo dos pássaros. Grata pelo por de sol lindo que pintou o céu de rosa. Grata pelos relâmpagos que iluminaram as noites chuvosas. Grata pela alegria indescritível que me envolve ao ver uma estrela cadente. Grata também pelas dificuldades que já surgiram e me derrubaram (muitas vezes enquanto eu estava desprevenida). Grata pelos tombos e pela oportunidade de pegar algo do chão antes de me levantar. Grata pelos entraves que adiaram a subida de mais um degrau... afinal, só assim sei valorizar cada passo novo que dou. Grata por hoje saber ver que os momentos de dificuldade foram essenciais – e, os de alegria, fundamentais. Grata por eu ser quem sou, fazer o faço e reconhecer o quanto é bom. Grata, meu bom Deus, por eu ter tantas coisas boas para agradecer. Não Lhe peço nada nessa oração, porque só Você sabe o que é necessário para mim. Aceitarei tudo, obediente e de bom grado. Grata pelo sono que me embala. E por eu conseguir me manter acordada até o fim dessa prece”. Amém.